quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

KFM45

Aula KFM 45
Meditação marcial:
Resistir é parte do processo, não sinal de fracasso.

"Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado."
(Hebreus 12:4 - Bíblia Sagrada)

A Levantada Técnica
Diferentes artes marciais utilizam o quadril de maneiras distintas. No Sistema Kung Fu Misto, a levantada técnica é construída sobre princípios de eficiência biomecânica, proteção e prontidão para o combate.
Partindo do solo, um dos calcanhares desliza por baixo do corpo em direção à nádega oposta. Simultaneamente, o tronco projeta-se para a frente enquanto o quadril avança sobre a perna de apoio. A outra perna permanece à frente, formando aproximadamente um ângulo de 90 graus, servindo como base para a ascensão.
Durante todo o movimento, as mãos não tocam o chão. Mantêm-se em Guarda de Caos, protegendo a cabeça, controlando a linha central e oferecendo as pontas dos cotovelos como ferramentas defensivas e ofensivas imediatas.
Não há etapas separadas. Tudo ocorre em um único movimento contínuo e coordenado. O corpo emerge do solo de forma estável, protegida e pronta para agir, sem expor-se desnecessariamente e sem perder a capacidade de responder a uma ameaça.
A levantada técnica não é apenas uma forma de ficar em pé. É a arte de transformar uma posição vulnerável em uma posição de vantagem, mantendo a consciência, a estrutura e a capacidade de combate durante toda a transição.

A FORÇA DOS PEQUENOS PASSOS
O caminho mais confortável jamais conduz ao cume. A excelência não acontece por acaso; ela é forjada como um hábito, lapidado no desconforto consciente e na disciplina de se apresentar todos os dias, mesmo quando o corpo implora por pausa. Cada passo repetido, ainda que pequeno, consolida a base da verdadeira maestria.
O peso da jornada não é um castigo — é o tributo da evolução. Quem compreende isso não foge do processo: sustenta o ritmo, fortalece o espírito e avança. Continue subindo. Sempre.


O efeito Dunning–Kruger na perspectiva do Sistema KFM
No ambiente marcial, especialmente nos primeiros meses de treino, é comum observar o chamado efeito Dunning–Kruger: o viés cognitivo no qual indivíduos com pouco conhecimento ou experiência tendem a superestimar a própria competência. No KFM, esse fenômeno não é tratado como falha moral, mas como uma etapa previsível do desenvolvimento humano quando ainda não houve confronto real com a profundidade do caminho.
O iniciante, ao adquirir algumas ferramentas técnicas, sente-se momentaneamente seguro. Executa movimentos, reconhece padrões básicos e, por ainda não ter sido exposto às camadas mais profundas do sistema — biomecânica fina, tempo, leitura de intenção, pressão psicológica, desgaste físico e responsabilidade ética — acredita já “saber”. No entanto, esse excesso de confiança nasce justamente da ausência de referência. Quem viu pouco, imagina que já viu tudo.
Com o amadurecimento marcial, ocorre o movimento inverso. Quanto mais se aprende, mais clara se torna a vastidão do que ainda não foi compreendido. Daí a máxima que ecoa nos sistemas tradicionais e que o KFM preserva como princípio formador: “Hoje, tudo o que sei é que pouco sei.” Essa não é uma frase de falsa modéstia, mas de lucidez estratégica.
A tradição, no KFM, não acelera processos por vaidade. Quando, após mais de 20 anos sob a tutela de meu mestre, questionei se já poderia criar meu próprio sistema, a resposta foi direta e pedagógica: “Ainda não. Quando você tiver 30 anos de prática, poderá.” Essa negativa não era limitação, era proteção. Proteção contra o ego, contra a pressa e contra a ilusão de domínio.
A obediência a esse princípio foi parte essencial da formação. O Sistema Kung Fu Misto não nasceu do entusiasmo inicial, mas da maturidade adquirida após mais de 35 anos de prática real, estudo contínuo, experiências diversas e, sobretudo, da permissão e orientação do mestre Vlad Mário. Mesmo após a criação da estrutura e da logomarca, o sistema não foi cristalizado como algo “pronto”. Ele permanece vivo, em constante desenvolvimento e aperfeiçoamento, como deve ser todo sistema sério e funcional.
Na perspectiva KFM, o verdadeiro conhecimento não grita, não se impõe e não se apressa. Ele se sustenta no tempo, na coerência entre teoria e prática, na responsabilidade com quem aprende e na humildade de reconhecer que o caminho nunca termina. O antídoto ao efeito Dunning–Kruger, portanto, não é humilhar o iniciante, mas conduzi-lo com firmeza, disciplina e verdade, até que a experiência lhe ensine aquilo que nenhuma explicação verbal é capaz de transmitir.


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