Lutar o bom combate exige propósito. Quem luta sem causa desperdiça energia e encurta sua jornada
Está escrito:
"Milita a boa milícia da fé, toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado, tendo já feito boa confissão diante de muitas testemunhas."
(1 Timóteo 6:12)
O Terceiro Tesouro – A Cabeça (a Mente)
No estudo dos Cinco Tesouros do Kung Fu, compreende-se com clareza por que a saúde ocupa o primeiro lugar e a defesa pessoal o segundo. O Grão-Mestre Carter Wong era enfático ao afirmar:
“Sem saúde, não podemos lutar.”
Essa máxima estabelece uma base irrefutável: o corpo é o instrumento da arte marcial, e um instrumento danificado não cumpre sua função.
Entretanto, ao avançarmos para o Terceiro Tesouro – a Cabeça, entramos em um nível mais profundo e, muitas vezes, negligenciado do verdadeiro Kung Fu: a mente, o raciocínio, a maturidade emocional e estratégica.
Surge então uma reflexão inevitável e necessária:
não deveria a mente ocupar, na prática, o primeiro lugar entre todos os tesouros?
A resposta, sob a ótica do Kung Fu tradicional e do Sistema Kung Fu Misto, é clara: sim, em essência.
A mente é o centro de comando.
É ela que decide quando lutar, quando evitar, quando avançar e quando recuar.
É ela que governa a respiração, regula a força, controla o medo, administra a agressividade e transforma técnica em estratégia.
Um corpo saudável sem uma mente treinada é apenas potência bruta.
Uma técnica eficiente sem discernimento torna-se perigosa para o praticante e para terceiros.
Já uma mente madura é capaz de preservar a saúde, evitar confrontos desnecessários e vencer batalhas antes mesmo que elas se iniciem.
No verdadeiro Kung Fu, lutar é a última opção.
Antes disso, a mente avalia o ambiente, lê o adversário, antecipa intenções, escolhe o melhor caminho e protege a própria vida. Isso é domínio real.
Por isso, o Terceiro Tesouro não se limita à inteligência comum, mas envolve:
Clareza mental sob pressão
Autocontrole emocional em situações de risco
Capacidade de tomada de decisão rápida e ética
Visão estratégica aplicada à vida, ao trabalho e à família
Quem domina a mente, domina o corpo.
Quem domina o corpo, domina a técnica.
Quem domina a técnica, preserva a vida.
No Sistema Kung Fu Misto, o treinamento da cabeça não ocorre apenas em teoria, mas é construído diariamente por meio da disciplina, da respiração consciente, do cultivo interno, da responsabilidade moral e da vivência prática. O objetivo não é formar lutadores impulsivos, mas indivíduos lúcidos, resilientes e preparados para os desafios do mundo real.
Assim, embora a saúde seja a base e a defesa pessoal uma necessidade, é a mente que sustenta, orienta e dá sentido a todos os demais tesouros.
Sem ela, não há Kung Fu.
Há apenas movimento vazio.
O verdadeiro guerreiro vence primeiro dentro da cabeça — e só depois, se necessário, no combate.
Do alto, o guerreiro observa o caminho percorrido...
não para sentir saudades do passado,
mas para lembrar de tudo que superou.
Cada queda lhe deu caráter.
Cada silêncio lhe deu clareza.
Cada passo solitário ensinou-lhe quem ele realmente é.
Não corre atrás do destino.
Constrói-o passo a passo com paciência e propósito.
Quem aprende a se dominar, nunca mais se perde.
Enfrentando ataque espiritual
No início da minha trajetória como instrutor, atuava como auxiliar e carregava um forte desejo de ensinar e treinar os alunos para que evoluíssem plenamente em três pilares fundamentais: condicionamento físico, técnica e estratégia. Naquele momento, essa tríade representava, a meu ver, a base necessária para um bom desempenho em combate e para a superação dentro da luta.
Com o passar do tempo, porém, a experiência trouxe uma compreensão mais profunda da realidade. Percebi que alguns dos alunos que preparei com excelência não foram vencidos por adversários mais fortes ou mais técnicos, mas por batalhas invisíveis, travadas fora do tatame — conflitos emocionais, espirituais e existenciais que nenhum golpe ou estratégia era capaz de neutralizar.
Foi então que compreendi que ensinar apenas a lutar não era suficiente.
Hoje, minha forma de ensinar é diferente. Agreguei a fé como fundamento, não como discurso, mas como prática viva. Quando uma pessoa sofre um ataque espiritual, a tríade do condicionamento, da técnica e da estratégia, por si só, não é suficiente para resistir às forças ocultas que operam neste mundo. Motivação humana, filosofia secular ou força de vontade não constituem alicerces sólidos para esse tipo de enfrentamento.
Somente a Palavra de Deus, aplicada de maneira prática e consciente, é capaz de vencer o mundo.
Como está escrito na Bíblia Sagrada:
“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus, para destruição das fortalezas.”
(2 Coríntios 10:4 – ARC)
Por isso, atualmente, todas as aulas do KFM incluem um versículo bíblico, não como ritual, mas como orientação estratégica para a vida. O aluno é lembrado de que, além das técnicas marciais, precisa aprender a usar as armas da fé, discernindo que há lutas que não se vencem com força física, mas com obediência, vigilância e aliança com Deus.
Como ensina o Bispo Macedo:
“A fé não é sentimento, é decisão. Quem decide obedecer à Palavra vence, independentemente das circunstâncias.”
Assim, o KFM não forma apenas lutadores preparados para o confronto físico, mas homens e mulheres fortalecidos para vencer as batalhas visíveis e invisíveis, mantendo-se de pé quando a luta não é contra carne ou sangue, mas contra aquilo que tenta destruir o ser humano por dentro.
Leque
O Leque no Sistema Kung Fu Misto (KFM) não é um ornamento estético nem um acessório folclórico. Ele representa um instrumento técnico, tático e simbólico, alinhado à lógica do KFM: simplicidade funcional, adaptação ao ambiente e eficácia sob pressão.
1. O leque como extensão do corpo no KFM
No KFM, o leque é tratado como uma extensão do braço e da intenção. Aberto ou fechado, ele ensina princípios fundamentais:
Estrutura: o alinhamento correto do punho, cotovelo e ombro
Economia de movimento: precisão em trajetórias curtas
Controle de centro: domínio da linha média
Sensibilidade: leitura da intenção do oponente
O praticante aprende que o leque não “ataca sozinho”. Ele obedece ao corpo, e o corpo obedece à mente disciplinada.
2. Aberto e fechado: duas naturezas, um princípio
Leque fechado
No estado fechado, o leque no KFM assume função contundente e direta:
Golpes de impacto em pontos ósseos e nervosos
Pressões articulares
Travamentos rápidos
Uso semelhante a bastão curto improvisado
Aqui, o leque representa a discrição. Algo comum, portátil, silencioso — exatamente como exige o treinamento realista do KFM.
Leque aberto
Aberto, o leque revela sua natureza estratégica e psicológica:
Desvio e redirecionamento de força
Ocultação parcial da linha de visão
Quebra de ritmo do oponente
Controle de distância
No KFM, abrir o leque não é teatral. É uma decisão tática, feita no tempo certo.
3. Leque KFM e princípios internos
O leque é uma ferramenta privilegiada para o cultivo interno:
Respiração coordenada com o abrir e fechar
Fluidez do Chi, sem rigidez desnecessária
Alternância Yin–Yang: suavidade e dureza, silêncio e explosão
Consciência corporal plena
Cada movimento com o leque reforça a ideia central do KFM:
não é a força que domina, mas a estrutura e o tempo correto.
4. Aplicação feminina e realidade do KFM
No contexto do KFM — onde grande parte dos praticantes são mulheres — o leque assume ainda mais relevância:
Potencializa autodefesa sem dependência de força bruta
Desenvolve confiança, postura e presença
Ensina adaptação de objetos comuns como meios de proteção
Reforça a noção de controle antes do confronto
O leque simboliza que elegância e eficiência não se excluem. Pelo contrário: no KFM, caminham juntas.
5. O leque como símbolo marcial
Na imagem apresentada, o leque com a sigla KFM elevado e alinhado ao corpo expressa três mensagens centrais do sistema:
Disciplina – postura firme, base estável
Consciência – mente desperta, olhar interno
Identidade – o praticante não imita, ele representa
O leque torna-se, assim, um selo de identidade marcial, carregando o espírito do KFM:
preparar o corpo, organizar a mente e proteger a vida.
Conclusão
O Leque KFM não é passado, nem folclore.
É treinamento moderno, adaptável, silencioso e profundamente funcional.
Ele ensina que o verdadeiro poder não está na aparência do instrumento, mas na clareza de quem o empunha.
No KFM, até o gesto mais simples carrega estratégia.
E até um leque pode ser defesa, disciplina e sobrevivência.
Aula prática KFM 03
1. Aquecimento básico começando pelos tornozelos até o pescoço.
2.Terceira parte da primeira série Lian Gong, dedicada às pernas e pés.
13 - Rodar o joelho a direita e a esquerda
para a direita, para frente e para esquerda e estica
As mão ficam sobre os joelhos para aquecê-los. Quatro repetiçoes para cada lado. Inspirar e soltar.
14 - Flexionar as pernas e girar o tronco
Joelho é alinhado com o pé, fortalecendo a musculatura.
O peito gira para o outro lado da perna esticada.
Inspira para o lado e solta para o centro.
Equilibrar sensação de força na perna flexionada e alongamento na perna esticada.
15 - Flexionar e esticar as pernas (indicado para dor no nervo esquiático)
Iniciando em pé com mãos no joelho, abrindo cotovelos para abaixar bem, mãos apertam joelhos um contra o outro. Sentar no calcanhar. Mãos sobrepostas nos pés, empurrar quadril para cima estendendo as pernas, manter cabeça levantada. Sobe o tronco com as mãos deslizando ao lado das pernas.
16 - Tocar o joelho e levantar a palma
Postura do Cavalo, uma das mãos na parte de dentro da coxa, olhando para frente, vai flexionando e erguendo a outra palma.
Contagem e respiração. 1- Inspira levando mão no joelho 2- expira erguendo a palma
Finaliza abaixando o braço e fechando a postura do cavalo.
17 - Abraçar o joelho contra o peito
Dê um passo à frente erguendo os braços à frente inspirando, descendo os braços na lateral expirando e abraçando o joelho da perna de trás. Inspirar erguendo novamente os braços e recuando o pé. Repetir com o outro joelho. O pé que está atrás e irá levantar o joelho, fica na ponta do pé.
18 - Passos marciais
Uma postura marcial com serenidade. Passo firme e calmo.
Coluna sempre ereta.
Cuidados com o joelho alinhado
Coxas no mesmo alinhamento.
O MOVIMENTO “REPELIR O MACACO” (Dǎo Nián Hóu / 倒辇猴)
O movimento conhecido como Repelir o Macaco é um dos pilares técnicos e conceituais do Tai Chi Chuan tradicional, amplamente preservado e reinterpretado dentro da lógica do Sistema Kung Fu Misto. Trata-se de uma ação aparentemente simples, porém profundamente sofisticada, que integra biomecânica refinada, intenção estratégica e cultivo interno.
1. Aspectos essenciais na prática
No plano técnico, Repelir o Macaco ensina o praticante a avançar recuando, princípio central das artes internas.
Estrutura corporal: a coluna permanece ereta, o quadril relaxado e os joelhos flexíveis. O recuo do corpo não é fuga, mas reposicionamento estratégico.
Coordenação mãos–pés: enquanto um pé recua de forma controlada, a mão oposta empurra ou conduz, criando um efeito de espiral que conecta o corpo inteiro.
Uso do centro (Dantian): o movimento nasce no centro, não nos braços. As mãos apenas expressam a força que já foi organizada internamente.
Respiração: profunda, contínua e silenciosa, sustentando estabilidade emocional e clareza mental.
Ritmo e intenção (Yi): não há pressa. Cada repetição educa o sistema nervoso a manter presença mesmo sob pressão.
Na prática correta, o corpo aprende a ceder sem colapsar, mantendo integridade estrutural e prontidão.
2. Aplicação em defesa pessoal
Em defesa pessoal, Repelir o Macaco é uma lição de sobrevivência inteligente.
Gestão da distância: o recuo cria espaço seguro, quebrando o ímpeto do agressor sem confronto direto de força.
Redirecionamento: a energia ofensiva do oponente é conduzida para o vazio, desequilibrando sua base.
Proteção da linha central: mesmo recuando, o praticante mantém sua estrutura fechada, protegendo áreas vitais.
Economia de energia: ao invés de resistir frontalmente, utiliza-se o princípio da alavanca, do tempo e do ângulo.
Preparação para resposta: o recuo estratégico posiciona o praticante para controle, evasão ou neutralização subsequente, conforme a necessidade.
No contexto do KFM, esse movimento reforça um princípio fundamental: sobreviver é manter lucidez, não provar força.
3. Significado espiritual
Espiritualmente, Repelir o Macaco é uma metáfora profunda de domínio interior.
O “macaco” simboliza a mente inquieta, impulsiva e reativa — conceito presente tanto na tradição oriental quanto na vivência espiritual cristã. Recuar diante do macaco não é medo, mas sabedoria: é negar espaço às reações descontroladas, às emoções precipitadas e ao orgulho.
“Melhor é o que tarda em irar-se do que o forte; e o que governa o seu espírito do que o que toma uma cidade.”
(Provérbios 16:32)
Repelir o macaco é, portanto, governar o próprio espírito antes de tentar governar o mundo exterior.
A maior guerra que o ser humano enfrenta não é contra os outros, mas contra aquilo que se levanta dentro dele.
Nesse sentido, o movimento convida o praticante a recuar do impulso, do pecado, da ira e da ansiedade, mantendo-se firme na fé, na disciplina e no autocontrole. Assim como no corpo, na vida espiritual o recuo estratégico evita quedas e prepara o caminho para decisões justas e fortes.
Síntese final
Repelir o Macaco não é apenas um exercício marcial.
É um treinamento de corpo, mente e espírito.
Ensina a ceder sem perder, a recuar sem desistir e a manter domínio interno mesmo quando pressionado externamente.
No KFM, este movimento forma guerreiros completos: estáveis no corpo, lúcidos na mente e firmes no espírito.
Técnica Especial 3 - Chute lateral
Capacitação física: flexibilidade e explosão
10. Qi-gong final, 3° dos 8 exercícios preciosos (5 min)
3° Ba Duan Jing (Oito Peças do Brocado) também conhecido como “Regular o Baço e o Estômago levantando uma mão”.
Este movimento trabalha o alongamento assimétrico da coluna, a mobilização das costelas, a estimulação dos meridianos do baço, estômago e fígado, além de promover organização postural e equilíbrio interno.
No Sistema Kung Fu Misto, este exercício é utilizado para ajustar o centro, estabilizar a respiração e desenvolver o sentido de “elevar e enraizar ao mesmo tempo”.
1. Objetivo energético (Qi-Gong)
Harmonizar o Baço (responsável pela transformação e transporte da energia obtida dos alimentos).
Tonificar o Estômago, fortalecendo digestão e vitalidade.
Equilibrar a subida e descida do Qi:
A mão que sobe conduz o Qi para o alto.
A mão que desce ancora a energia e abre espaço interno.
Essa alternância cria um circuito vertical, essencial para estabilizar emoções e reduzir sensação de peso mental ou cansaço pós-refeições.
2. Execução técnica
Posição inicial:
Pés paralelos, largura dos ombros.
Joelhos relaxados.
Coluna ereta, queixo levemente recolhido.
Respiração natural.
Movimento:
1. Uma mão sobe pela linha central e gira a palma para cima, como se empurrasse o céu.
2. A outra mão desce com a palma voltada ao solo, como se empurrasse a terra.
3. A coluna alonga suavemente, sem hiperextensão.
4. O olhar permanece à frente, relaxado.
5. Troque os lados de forma fluida e contínua.
Respiração:
Inspire enquanto prepara a subida.
Expire no alongamento final.
Respiração leve, contínua, sem esforço.
3. Sensações corretas durante o exercício
Alongamento suave nas laterais do tronco.
Leve expansão da caixa torácica.
O corpo parece crescer para cima enquanto se enraíza para baixo.
A mente torna-se mais clara e estável.
No KFM, esse estado é útil para centralizar o praticante antes de treinos mais intensos, ajudando na transição entre vida cotidiana e prática marcial.
4. Benefícios físicos e marciais
Físicos:
Melhora digestão e vitalidade.
Alivia tensão nos ombros e pescoço.
Alongamento da cadeia lateral do corpo.
Mobiliza a coluna torácica.
Auxilia no equilíbrio postural.
Marciais:
Desenvolve coordenação assimétrica (essencial no Wing Chun e no KFM).
Aumenta consciência da linha central.
Treina expansão e contração sem esforço.
Ajuda no refinamento do “subir e descer” do corpo em movimentos de evasão e emissão de força.
5. Aplicação para o praticante do Sistema Kung Fu Misto
Prepara a estrutura para golpes lineares.
Facilita a mobilidade das costelas para respirações de poder.
Ajuda a manter o corpo organizado para posições como Pak Sau, Tan Sau, Lan Sau e empurrões estruturais.
Fortalece a sensação de “corpo leve em cima, firme embaixo”, útil no combate e no Tai Chi.
6. Frequência recomendada
8 a 12 repetições por lado.
Ritmo lento, sem travar articulações.
Praticado diariamente produz efeitos acumulativos perceptíveis em poucas semanas.
Prátca Wing Chun
9. Lap Sao e Pak Sao dois a dois (Lat Sao)
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